Strings |Translúcido: Uma outra história

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Vai lá viver, garoto. Você merece…

Acho que as palavras que ele me dizia na infância eram as melhores para o momento, por isso disse.

Gostaria de poder te pedir perdão, meu pai. Foi necessário fazer isso tudo. Não podia permitir que sua vida se repetisse. Eu sempre soube quem era você no fundo e aquilo que tinha se tornado não era o meu pai.

Eu olho pra você e o vejo tão diferente. Sem aquela presença. É quase impossível te ligar a mim. À minha vida. É tudo muito confuso.

Devido ao fato daquilo que estava no seu sangue correr também no meu, tenho o mesmo que você tinha. Adquiri a mesma consciência partida que você tinha e talvez pudesse ter sucumbido a ela se não fosse o que sempre chamei de maldição e hoje vejo que foi um dom.

Quem diria que aquela explosão que quase lhe matou e lhe deu seus “dons” iria nos trazer hoje aqui, não?

Eu te olhando nos olhos e você nem sabe quem sou.

Espero ter feito o certo.

Eu sabia que algo precisava ser feito quanto a nossa vida no momento que descobri que podia saltar. Levou anos pra eu me acostumar com os saltos. Sempre acabava em um lugar diferente entre as dezoito dimensões e quase morri muitas vezes, pois em algumas delas nunca existimos e portanto não podia permanecer muito tempo.

Muitas vezes tentei evitar seu acidente e sempre fui mal sucedido. Isso tiraria meu dom, mas não me importava. Precisava te ajudar. Por mais que tentasse, sempre falhava. Aquilo não podia ser mudado.

Como nunca fui normal, mesmo tendo cinco anos lembro das histórias que mamãe me contava sobre você, de antes de eu nascer. Como foi heroico o modo como salvou tia Marie daquele incêndio em que você foi atingido e onde toda essa história começa. Como a impediu de embarcar naquele avião que caiu logo após decolar, e tantas outras coisas.

Após o acidente sua mente começou a se deteriorar e acabou criando um lado que você não conseguiu controlar. Com isso veio também um dom que poderia ser usado de uma maneira boa, mas não foi.

Quando fiz seis anos, ele tomou conta de você. Sempre quando deito vejo seus olhos negros. Lembro daquela noite em que, sem motivo algum você, pela primeira vez, matou.

Sempre que me distraio ouço seus gritos, mãe. Me perdoe por não poder ter feito nada por você.

Talvez por eu ser parte do que era, jamais conseguiu entrar na minha mente como fazia com todos os outros ao seu redor, mas aquela foi a noite em que estava mais forte e de alguma forma distorceu minhas memórias. Só fui me lembrar do que realmente aconteceu anos mais tarde.

Obviamente jamais conseguiram provar nada contra você. E como poderiam?

Como se prova que alguém matou uma pessoa usando somente a mente?

Você se safou desse e de diversos outros crimes. Sempre da mesma forma, manipulando ou apagando as mentes alheias. Na nossa realidade pagou um preço alto por isso. Seu cérebro começou a morrer cedo. Creio que o meu também já esteja bem destruído, mas isso não faz muita diferença agora.

Com doze anos consegui desbloquear essas lembranças. Foi quando tudo começou pra mim. Os saltos eram quase incontroláveis no início e muitas vezes voltava pro momento em que você a matava. Via tudo novamente. Ela se contorcendo de dor com suas mãos em volta da cabeça, enquanto você ria.

Muitas vezes vim também  à essa realidade e observava sua vida.

Você tinha tudo, mas não parecia feliz. Era como se fosse um autômato. Como se não tivesse alma.

Com algum tempo desenvolvi a capacidade de permanecer entre realidades. Assim não podia ser visto mesmo que estivesse na frente das pessoas, dessa forma observei muito até tomar a decisão de te ajudar, ou melhor, mudar tua história.

Tentei por muito tempo influir. Te fazer mudar tuas ideias, mas tudo o que fazia era inútil, então o único modo era agir desesperadamente.

Eu precisa te fazer ver que haviam outros caminhos. Pra isso fui fundo no meu limite de tempo. Como nunca pude ficar muito tempo em lugares onde eu não existia decidi voltar onde tudo começou pra vocês dois. No começo do seu namoro, que eu sabia, ia avançar. Eu era a prova de que daria certo.

Meu plano inicial era falar com você, mas quando fiz isso, você não acreditou, mesmo com todos os detalhes que te dei. Sempre fostes muito cabeça dura pra aceitar que só queria te ajudar.

Tentei novamente. Fui alguns dias antes. Fiquei entre realidades para evitar que me visse. Eu estava dentro da sua casa. A mesma que eu cresci. Com suas quinas tão conhecidas por meus dedos infantis.

Não havia ainda tido tempo de observar-te  e naquele dia o fiz. Do alto dos meus vinte e oito anos me senti quase superior a você com seus vinte e cinco e nenhum conhecimento perto do gênio que se tornaria com os dons que ganharia.

Mas o que poderia fazer?

Envergonho-me de dizer que já tive a ideia de te matar, assim não haveria nenhum de nós dois e mamãe ficaria bem, mas preferi afastar essa ideia pelo menos inicialmente. Queria tentar tudo.

E se eu o levasse comigo?  Pensei comigo certo dia

Não seria a primeira vez que faria tal coisa, mas era algo perigoso. Quando tinha dezesseis anos, por acidente, levei uma namorada vinte anos à frente. Eu continuava o mesmo, mas ela envelheceu esses anos e ficou apavorada. Por fim pedi pra que meu pai apagasse estes fatos de sua mente.

Acabei descobrindo que quando levava alguém, este recebia toda a carga dos anos. Ou seja, se levasse alguém cem anos à frente e essa pessoa não estivesse viva nessa época, morreria e seria impossível trazê-la de volta. Eu não podia viajar muito ao passado e era quase impossível modificar qualquer coisa. De uma forma ou outra, elas aconteciam. Saltar também me cansava demais. Principalmente se fosse de uma realidade à outra. Por isso evitava.

Arrisquei. Saltei três vezes ao mesmo lugar pra ter certeza de que havia marcado bem.

Então me joguei.

Saltei com a carga mais valiosa para mim.

Foi rápido e ele nem se deu conta onde estava pois continuou a urinar no chão do banheiro. Coisa que mamãe odiava. Ainda pude vê-la bater nele por isso.

Lembrava do seu semblante daquela maneira.

Sentado na minha barreira, arfando de cansado, observei ainda a sua cara de espantado quando ela apareceu. Estava no lugar certo.

Apaguei. Foi a primeira vez que isso me aconteceu. Estava exausto e desmaiei. Com isso quase pus tudo a perder, pois a minha ideia era trazê-lo ali e mostrar tudo o que ele podia ser. Tudo o que podia ganhar.

Queria que ele soubesse o que estava reservado. Mostrar cada etapa daquela vida a ele, fortalecendo-o assim, para que quando acontecesse pudesse conter o outro do mesmo modo que eu.

Não sei exatamente quanto tempo fiquei desacordado na barreira, mas quando acordei, estava preso. Não consegui saltar pra lugar nenhum. Ainda assim podia segui-lo e o fiz.

Quando não consegui levá-lo de volta, me dei conta de que precisava fazer algo para remediar a situação. E a opção mais viável era fazer que ele tivesse todas as experiências ali. De uma vez. Ao menos até eu ter forças de levá-lo de volta.

Acompanhei-o até o escritório de advocacia que agora possuía e enquanto ele olhava embasbacado para seus funcionários fui até sua sala e com a mesma senha que ele sempre usava abri seu caderno grande de notas.

O engraçado é que, em todas as realidades ele possuía o mesmo caderno.

Abri-o e estava em branco. Tentando ao máximo fazer com que minha letra se parecesse com a dele escrevi: Vá lá e viva, garoto. Você merece. Carpe Diem.

Deu resultado. Ele imaginou exatamente o que eu queria.

VÁ VIVER, GAROTO.

E ele foi.

Acompanhei-o por muito tempo.

Tive a oportunidade de me ver criança. De ver minha mãe feliz como nunca havia visto. Revi minha família reunida. Todos felizes, da forma que deveria ser.

Conheci muita gente que não sabia que existia. Como minha avó, Ester que tinha sumido há muitos anos e nunca consegui chegar até sua época. Algo me impedia. Mas o mais estranho foi tia Clara. Ela era uma incógnita e não existia em nenhuma outra realidade. Nem mesmo lembrança da sua existência. Fora o fato de ela não dever existir, ainda havia o de que ela sentia a minha presença e muitas vezes quase pode me ouvir. Ela era estranha e temia que pudesse me revelar, mas sempre fiquei perto dela, pois me trazia uma paz incomparável. Me energizava.

Permaneci assim por um ano. Preso.

Em uma noite de verão tentei levá-lo de volta.

Não pude. Era como se ele fosse um ponto fixo naquela realidade.

Mas isso não podia ocorrer, pois nem dali era. Era um intruso assim como eu. Precisava levá-lo de volta, mas não podia.

Resolvi voltar sozinho e achar um meio de arrastá-lo de volta, mas também não pude. Conseguia ir e voltar ali, naquela linda de tempo, mas não mudar de realidades. Resolvi ir até um acontecimento que sempre me contavam, mas nunca tinha tido a oportunidade de visitar.

O dia que ele a impedira de embarcar no avião, pois havia tinha um sonho em que ela morreria.

Saltei

Sabia o dia a hora e o lugar. Ela estava lá. Minha mãe com dezessete anos, linda. Nunca entendi sua obsessão com o branco, mas não me desagradava seu gosto.

Fiquei observando através da barreira, mas ele não vinha. A última chamada foi dada e ele não aparecia. Algo precisava ser feito.

Eu era idêntico a meu pai quando jovem. Então, pela primeira vez, interferi diretamente na história.

Saí da barreira e corri até ela. Implorei para que não pegasse aquele avião, pois iria morrer se o fizesse. Assim como havia ouvido dela, falei sobre o sonho e tudo o que havia aprendido sobre ela.

Consegui com que mudasse de ideia e voltasse pra casa. Minha avó ficou possessa, mas relevou instantaneamente quando me viu. Ela parecia me esperar.

Apesar do meu metro e oitenta e cinco, me abraçou e disse:  -Oi, meu pequeno.

Era como se soubesse quem eu era, mas não pude saber ao certo.

Consegui salvá-la, então fui até o autômato. Com o pouco que havia herdado de meu pai, consegui colocar em sua mente algumas informações sobre o que havia acontecido.

Era como se ele não tivesse alma. Foi algo muito simples e eu nunca havia entrado em nenhuma mente. Nunca consegui nem ao menos fazer com que meu gato se levantasse do tapete.

Ele era o mais estranho de todos e com certeza não faria falta.

Saltei de volta, mas fui longe demais. Não sei o porquê, mas não consegui focar na época em que o havia deixado. Cheguei anos mais tarde. Quando meu eu daquele lugar fazia seis anos.

Ficara tempo demais e não podia voltar atrás. Ainda não podia arrastá-lo, então voltei a acompanhar sua vida.

Fiquei alguns dias acompanhando sua rotina e me dei conta de que ele estava bem. Iria suportar a volta e com certeza controlaria tudo que havia por vir.

Me mantive afastado de Clara, de minha avó e de mim mesmo. O qual não podia nem mesmo tocar para evitar um deslocamento na realidade.

Então, qual não foi minha surpresa quando ao descer para sua casa da praia, nenhum dos três os acompanharia. Podia assim ficar mais próximo ainda.

Me mantive na barreira e os acompanhei no carro.

Nem mesmo eu poderia adivinhar o que aconteceria.

No fim daquela ponte um caminhão nos acertou e deixou o carro dependurado. Mesmo eles não podendo me ver, eu fazia parte do conjunto e o fato de eu estar na traseira do carro fez com que este não caísse imediatamente e sim, ficasse dependurado.

Ela havia desmaiado e ele estava muito machucado. Não havia como ele sair dali e nunca consegui saltar em situações de extremo estresse como era aquele.

Cada vez ficava mais desesperado, pois estava vendo que ambos poderiam morrer e assim, juntamente, todos meus sonhos e esperanças.

Ele a obrigou a sair do carro e eu sabia no que estava pensando. Eu vi que aquele homem era o Rodrigo que procurava e meu pai. Ele estava salvo e mesmo assim, condenado.

Me sentia totalmente impotente perante a situação. Porque eu tinha que falhar justo agora?

Ela começou a sair pela parte de trás e tive que me mexer para que ela não soubesse que estava ali. Quando ela abriu a porta traseira o carro começou a derrapar mais. Não havia o que fazer. Precisava tentar. A abracei e saltei. Consegui deixá-la dois segundos depois bem à beira de onde o carro caíra. Estava em choque e gritava. Nem se deu conta de que não conseguiria sair do carro. Pude ainda ver enquanto o carro caía. Quando se chocou contra a água senti uma pontada bem no meio do peito.

Comecei a desvanecer. Como ele jamais voltaria à sua realidade, eu não existiria.

Senti uma espécie de tremor ao meu redor. Como se fosse o universo cobrando tudo o que havia feito, mudando pequenos pedaços da história. Cobrando aquele dom, aquela maldição que eu jamais poderia ter tido.

Mas eu não podia desistir assim. Ele não poderia morrer assim. Merecia uma nova chance pelo que havia se tornado. Ele viveria, com eles. Já não acreditava ter forças para saltar pra casa, mas com certeza conseguiria tirá-lo do carro ao menos.

Saltei pra dentro do carro. Ele se debatia tentando se soltar do cinto e soltar sua perna quebrada, mas estava prensada. Eu, de dentro da barreira não precisava nem mesmo de oxigênio, então consegui criar um lapso de tempo e o soltei.

Estávamos totalmente submersos. Ele não resistiria muito tempo, então o envolvi com o abraço que jamais havia podido dar e saltei sem saber pra onde. Só saltei. Quando abri os olhos estava no ponto de início. Onde tudo havia começado.

Mas eu não devia ter forças pra saltar tão longe.  Era simplesmente impossível. E ainda assim estávamos ali. Ele debaixo do chuveiro e eu me sentindo mais forte do que nunca.

Vi-o apavorado quando se deu conta do que estava acontecendo. A primeira coisa que fez foi arrastar a perna, pensando que estava quebrada, mas ao trazê-lo de volta, seus ferimentos se extinguiram.

Saiu do banho correndo e pegou seu auricular pra ligar a ela. Como a TV estava ligada, mudei de canal sem que ele percebesse para um que tratava de quedas de aviões. Precisava que ele a salvasse novamente. Era assim que a história começava pra eles.

Ela falou da viagem e ao ver o canal, vi que havia se dado conta do que precisava ser feito. Havia apostado todas as fichas nele e sabia que não me desapontaria. Ele iria salvá-la.

Assim que retirou o auricular, começou a correr pela casa em busca de documentos e demais coisas necessárias para viajar. Lembro o sorriso em seu rosto enquanto chorava.

-Posso reconstruir tudo aqui. Dizia.

-Posso ter minha família de volta.

-Ela te salvou. Faça o mesmo por ela. SALVE-A. Disse pensando que ele não me ouviria, mas em seguida começou a repetir.

Saltei imediatamente pra dali dois dias, quando se encontrariam. Só em fotos a havia visto tão branca. Um ser que não gostava de sol, um vampiro. Era assim que se referia a ela quando jovem.

Por várias vezes ele a ligou, mas ela só ouvia quem estava ligando e desligava. Repetia de si para si.

-Se ele quisesse se despedir, viria aqui, não ligaria.

Era muito cabeça dura também. Ao menos já sabia de onde havia herdado minha teimosia.

-Porque você não veio? Ela se perguntava e meu desejo era sair da barreira pra dizer-lhe que ele estava vindo. Acabar com aquela angústia.

Ao que pude entender, estava magoada devido a uma briga que tiveram alguns dias antes, mas sabia que quando ele chegasse tudo mudaria. Iriam se entender. Ela não iria embarcar e tudo ficaria bem. Tudo ia entrar nos eixos e eu poderia voltar à minha vida finalmente.

Quando ele chegou vi-a sorrindo, mas escondeu isso em uma máscara de raiva e foi falar com ele.

-O que faz aqui?

-Você não pode embarcar!!

Pronto. Estava feita a guerra.

-Idiota. Você vive tentando controlar minha vida! AGORA que vou embarcar mesmo.

Ela havia pensado em desistir…

Discutiram ainda por muito tempo até que chamaram por seu voo. Ela começou a se dirigir ao portão de embarque e ele tentou detê-la, mas foi inútil. Chorando ela passou pelo portão, mesmo após ter sido acusada de carregar drogas na bagagem. Um grito de desespero dele.

Ela embarcava enquanto ele lutava pra se livrar de dois seguranças enormes.

Algo precisava ser feito e não podia interferir ao ponto de não deixá-la ir.

Fui, então até onde ele estava e soltei o braço de um dos seguranças. Vendo-se meio livre arrumou forças não sei de onde e desferiu tamanho soco na cara do outro segurança que este imediatamente veio ao chão desacordado.

Enquanto ele corria pelo saguão, eu rezava. -Ele vai conseguir. Ele precisa conseguir

Parecia um louco gritando, mas ela já não o ouvia. Ficou na parede de vidro por onde se podiam ver os aviões partindo. Pudemos ver o dela levantando voo. O quanto ele chorava…

Isso o abalou tanto que chegou a duvidar da própria sanidade. Dizendo a si mesmo que tudo o que havia vivido não passava de um delírio, um devaneio. Ele imaginaria tudo pra se apegar a esperança de que ela ficaria bem.

Quando nos viramos para ir embora, senti um frio na espinha. Ouvi uma explosão e sem pensar saltei.

Não a alcancei. Acabei indo parar dois dias adiante, vendo ele chorando sobre o caixão.

Saltei novamente e dessa vez o vi debaixo do chuveiro, meses depois, implorando para que o chão tremesse, que tudo voltasse ao normal.

Saltei. Ele estava em um hospital psiquiátrico.

Saltei. Ele havia voltado à vida normal

Saltei. Estava novamente no saguão do aeroporto.

Saltei.

Saltei

Saltei

Saltei

E nunca a alcancei.

Todas as vezes ia parar no saguão, com ele chorando e implorando pra que aquilo fosse só algo da mente dele. Implorando a Deus pra ela voltar.

Tentei voltar. Impedir ela de embarcar, mas era como se ela tivesse virado um ponto fixo no universo.

Nunca pude saltar mais do que vinte vezes seguidas, porém saltei dezenas de vezes mais. Quando cheguei a vinte, tentei de novo e fui. E continuei. Parei de contar quando estava em setenta.

Por diversas vezes pude me ver saltando. Havia criado já uma teia. Não havia mais possibilidades de salvá-la.

Voltei ao saguão. Juntei o que podia de energia que podia e arrisquei. Iria voltar ao início. Me impediria de alguma maneira. Aquele ciclo precisava acabar.

Não importava o que fizesse, ela sempre morria.

Nunca devia ter começado tudo isso. Nunca devia ter dado todas essas esperanças a ele.  O destino havia agido cruelmente contra nós dois…

-Não foi o destino, garoto. Ouvir aquela voz ao meu lado me encheu de pavor.

Não fazia sentido. Como poderia estar ali? Não deveria. Estava errado.

E repetiu para que eu entendesse claramente: -Não foi o destino, meu pequeno.

Era ela. Minha avó, Ester.

Estava apavorado demais e tentei me afastar dela. Tentei saltar, mas ela simplesmente levantou a mão e estávamos dentro da barreira. Não podia mais saltar. De alguma forma estava sendo bloqueado.

-Agora você vai me ouvir, me disse com um tom de voz que me fez perceber que não havia o que fazer senão obedecer. Até mesmo porque não havia como sair dali.

-Sempre fui sua tutora. Mesmo a distância, sempre cuidei de ti. Vi você se tornar um bom homem e muito forte. Mas não posso mais deixar que continue. Você já fez o suficiente. O salvou.

-A morte dela é inevitável, meu pequeno. Não há nada que possa fazer. Você simplesmente adiantou isso e se condenou. Eu posso mantê-lo a salvo agora, mas não aqui. Se você vier comigo te levarei onde poderá viver, mas sem seu dom.

Era informação demais pra mim. Nada daquilo fazia sentido nem mesmo pra mim que era mestre em fazer coisas que não faziam sentido.

-Sempre estive aqui, já disse. Também nasci com isso, mas fui escolhida, ao contrário de você.

-Não. Não és o único. Hoje há poucos de nós. Não mais do que cinquenta em todo o mundo. Sua vida só foi poupada, pois o guardião deste mundo assim o permitiu. Pois o guardião queria ver o que um ricker não natural poderia fazer, já que sua consciência não podia ser vista e assim não podíamos saber se seus atos seriam bons ou não.

-Essa é sua história. Sua verdadeira história, mas já não pode mais segui-la. Sua vida pode ser salva, mesmo seus pais não existindo nessa realidade, mas você precisa vir comigo. Te explicarei tudo com calma depois.

-Não. Ainda tenho algo a fazer. Não vou desistir agora, repliquei.

-Você não pode mais fazer nada por eles. Disse-me ela.

-Vamos ver…

Sem me importar com o que aconteceria, me concentrei e reuni a energia necessária para saltar.

Antes de ir pude ouvi-la falando. –Você está sozinho, meu neto. Não posso mais fazer nada por você. Só tens mais essa linha de salto e acabou. Use com cuidado.

Ela sumiu da minha frente e saltei.

De certa forma foi muito bom saber que não estava sozinho, mas queria ter sabido disso antes.

Seria muito bom ter aprendido mais sobre o que sou. Sobre o que poderia ter feito.

Não havia mais tempo para arrependimentos. Alcancei-o três anos no futuro já são e acreditando que tudo o que havia acontecido não passara de uma ilusão da própria mente.

Uma das últimas coisas que ela me disse fora que a água era uma ótima condutora e isso fazia com que os saltos se tornasse mais fáceis, por isso escolhi um momento em que ele estava tomando banho, pois ele nunca mais entrara em um rio ou mar.

Por estar gastando tudo o que tinha, quando cheguei à ele fiz com que tudo ao redor tremesse. Simplesmente o agarrei, marquei pra onde ir e, violentamente, saltei.

Tinha certeza que sobreviveria a mais uma passagem, por isso fui até o carro novamente.

Não sei ao certo como, mas ela havia conseguido chegar até ele e o puxava.

Infelizmente quase não tinha mais forças então, praticamente só assisti enquanto ela o puxava pra fora do carro. Chegou a dividir seu ar com ele.

Estávamos todos exaustos, mas eu sorria.

Era dessa forma que deveria ser. Juntos. Era assim que deveriam estar no fim. Depois do que ele me provou não seria justo que eu deixasse que sua vida fosse vazia novamente.

Ele merecia essa chance.

Quando saltei pela primeira vez, com doze anos, não tinha a menor ideia que acabaria assim. Com certeza não podia ao menos supor. Não com ele dentro de mim, gritando.

É bom saber que, no fim, fiz o certo.

Conseguiram. Saíram da água.

-Cuidem dela! Ajudem ela!

Podia ouvi-lo gritando para os socorristas que vieram ao seu encontro. Ainda estava no fundo do rio, então saltei.

Estava ao lado dela quando acordou e bateu nele por tê-la assustado tanto.

-Eu voltei por você. Sempre volto, não é?

Como era convencido. Não fazia ideia que só tinha voltado porque eu o havia trazido.

Pela primeira vez em anos, ri.

Como é bom poder rir de novo.

Quando o estavam pondo na ambulância resolvi sair da barreira.

Meu tempo se acaba.

Após muito tempo resolvi olhá-lo nos olhos e não da forma que via da barreira. Daquela forma translúcida…

Acho que acaba aqui, meu pai. Começo novamente a desvanecer. Já sou quase uma sombra.

Precisava falar tanto ainda contigo, mas já não temos tempo.

E como últimas palavras, acho que um improviso das suas seria justo.

-Você conseguiu. Você a salvou. Agora vá viver, garoto. Você merece.

Digo a sorrir e assim passo a fazer parte somente do tempo que toma o que é seu por direito.

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